terça-feira, 25 de janeiro de 2011

DEVOÇÃO: UMA RIQUEZA DE AMOR!

Oi Filoteu,

   Nestes dias recordamos um santo que muito admiro: Francisco de Sales. Filho de pessoas nobres, mas profundamente simples, sensível, um arraso de gente (no bom sentido da palavra, evidente!). Cara, ele arrasou meesssmo: ele foi quem inventou o jeito que eu escrevo este blog: ele inventou a Filoteia e eu copiei dele e inventei o Filoteu. Tu és o Filoteu, ou seja, o amigo de Deus. Bicho, saca só o que ele diz:

   "A verdadeira devoção, Filoteia pressupõe o amor de Deus, ou melhor, ela mesma é o mais perfeito amor a Deus. Esse amor chama-se graça, porque adereça a nossa alma e a torna bela aos olhos de Deus. Se nos dá força e vigor para praticar o bem, assume o nome de caridade. E, se nos faz praticar o bem frequentemente, pronta e cuidadosamente, chama-se devoção e atinge então ao maior grau de perfeição. Vou esclarecê-lo com uma explicação simples e natural.
    Os avestruzes têm asas, mas nunca se elevam acima da terra. As galinhas voam, mas têm um vôo pesado e o levantam raras vezes e a pouca altura. O vôo das águias, das pombas, das andorinhas é veloz e alto e quase contínuo. De modo semelhante, os pecadores são homens terrenos e vão se arrastando continuamente pelo chão. Os justos que ainda são imperfeitos, elevam-se para o céu pelas obras, mas fazem-no lenta e raramente, com uma espécie de peso no coração.
   Somente as almas possuidoras de uma devoção sólida é que se elevam até Deus por uma vôo vivo, sublime e, por assim dizer, incansável. Numa palavra, a devoção não é nada mais que a agilidade e viveza espiritual, da qual ou a caridade opera em nós ou nós mesmos, levados pela caridade, operamos todo o bem de que somos capazes".
   Caramba! Ele ajudou a entender que cada um deve procurar crescer, mas nessa pequenez, leveza, liberdade, desapego para voar na direção de Deus. Quem será como as águias, as pombas ou as andorinhas? Quem viver esse fervor, esse entusiasmos que vai sendo sempre alimentado pelo amor de Deus, pela graça divina e pelo desejo de crescer continuamente nessa amizade com o Senhor. É preciso cuidado para não deixar o forno esfriar! É preciso jogar lenha, é preciso colocar combustível nesse amor para que aqueça e, aquecido, esquente, cada vez mais. Fiquei impressionado com o exemplo das avestruzes: pesadonas, grandonas, desengonçadas, correm muito, mas aquele peso horrivel, aquele tamanhão as impedem de voar. Vivem correndo pela terra. Caraca, véio, que lição massa! Quantas vezes não passamos de avestruzes pesados, aquelas emas meio destrambelhadas e perdidas nas corridas pra tudo quanto é lado! E os que se parecem com as galinhas da capoeira? Com os capotes e perus? Vivem a ciscar o chão atrás de sementes e minhocas! Voam raramente e sempre com o bico no chão. Gente com altos potenciais e capacidades por terem conhecido a Deus, mas ficam por isso mesmo. Não passam do começo e voltam sempre para o mesmo ponto: não evoluem!
  E aí filoteu? Francisco de Sales falou para a filotéia algo que ajuda muito para a gente entender melhor como a gente vive! E nunca esqueço que quando viajo de avião vejo lá em cima as coisas da terra e nota-se como são pequenas! Não estou convidando ninguém ou quem quer que seja a viver no mundo das núvens, mas de verdade é preciso assumir o que somos chamados a ser. Tem gente que se enche de pesos com seus apegos, afetos desordenados, idéias destrambelhadas e erradas e daí só correm. Outros vivem um cristianismo medíocre: acendem vela pra Deus e outra pro diabo, vivem lá e cá, um pé numa barca e outro noutra. Mas, tem gente que tá na luta por uma conversão séria, no desapego, na liberdade interior tantas vezes duramente procurada e conquistada. E aí já viu, ninguém segura esse bebê!
   Cara, essa formação de Francisco de Sales foi para mexer, arrasar e triturar... (o que existe de errado ou mais-ou-menos dentro de ti).
    Que tuas escolhas se voltem para a liberdade que te fazem voar, sem medo na direção de Deus e do seu eterno amor!
     Abraço grande pra ti, amigo de Deus!
     Pe. Marcos.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Solidão e Silêncio: um desafio aos barulhos e fugas

Deserto, silêncio, solidão. Parece coisa de doido, gente anti-social, daqueles tipos esquiisitos, daqueles fulanos que não se aceitam e por isso não aceitam os outros. Resolvi escrever-te hoje, caro Filoteu, meu brother da net (e minha sister também, claro) que, de verdade, no duro, esse trio aí trás um poder-power que é a fina flor do abacaterol. Vivemos imersos nos barulhos mais doidos e as pessoas parece que não sabem mais parar, refletir, ouvir. Deixar o silêncio trazer nossos fantasmas, nossos medos e tratar tudo isso para enriquecer e fazer acontecer o processo do nosso amadurecimento e formação (humana, espiritual, profissional e o resto). .
Uma grande serva de Deus disse algo muito importante: "Mas, como pode alguém, na prática, ir ao deserto e conseguir a solidão? Parando! Pare! Deixe que a estranha e mortal inquietude do nosso tempo caia dos seus ombros, como um manto empoeirado e gasto – este manto que um dia, talvez, tenha sido considerado belo. A inquietude, o desassossego já foram considerados poeticamente como um tapete mágico e voador em demanda de um apressado amanhã. Hoje ele perdeu sua bela máscara poética e não passa de uma fuga de si mesmo, um desvio da jornada para dentro de si mesmo que todo homem deve empreender para encontrar-se com Deus nas profundezas de seu próprio coração. Pare! Olhe bem no fundo das motivações que a vida lhe oferece. Pare! Levante a Deus as mãos e o coração, pedindo-lhe que a força do seu Espírito possa desfazer e levar embora todas as teias de temores, egoísmos, cobiças e muitos outros fios em que se enreda e se emaranha seu coração. Que as labaredas deste Espírito desçam até você, até todos nós, devastando o que foi mal construído e deixando coragem para reconstruir direito!"
 O que existe no silêncio que ele incomoda tanto? O que existe na solidão ao ponto dela parecer tão avassaladora, perturbadora? Como disse acima, ela questiona, ela põe contra a parede, nos pomos diante da verdade de Deus e da nossa verdade. Resta-nos ter diante dos olhos e do coração aquela grande possibilidade de responder aos apelos de Deus, às interpelações fortes de uma humanidade que de algum modo cobra-nos respostas ou atitudes como respostas. Parar, pensar, rezar, refletir, contemplar. Calar, silenciar. Silenciar não só os barulhos externos, mas sobretudo os de dentro (que fazem uma zoeira amuada). E daí ser honesto nesta escuta do silêncio ou do que está por trás do silêncio ou dentro dele. Olha Filoteu, não quero viajar na maionese, não tenho intenção de ser meio filosófico ou dizer coisas vagas, mas convidar-te a acolher as possibilidades desafiantes e radioativamente chernobiticas do deixar-se interpelar e não ter medo do que poderá vir à tona. Dou a palavra para uma staretz do deserto:
"E todas estas paradas, nossas idas ao deserto, não necessariamente precisam ser feitas em um lugar retirado, mas podem também ser feitas em pleno barulho e plena atividade da vida diária de cada pessoa, qualquer que seja o seu estado de vida. São paradas que trazem ordem à alma, a ordem de Deus. E esta ordem divina trará consigo a tranquilidade e a serenidade do mesmo Deus. E com ela virá o silêncio interior". Ela ARRASOU! Que pensas tu?
Ei cara ou careta, fica sabendo que o deserto não é um lugar somente feito de paz sossegada ou de comodismo pessoal, individualizante. Vixe! Vai na contra-mão de tudo isso! E como! O deserto é também lugar da luta, lugar da descoberta de nossas sombras e mentiras, lugar onde o espelho do auto-conhecimento será posto diante da minha cara e eu ou taco a cara no muro ou enterro a cara por um lado. Por outro, eu me proponho de verdade a dar um rumo diferente. Insisto que o deserto é lugar da luta contra o mal. Na antiguidade, o deserto era considerado lugar dos demônios e que eles punha à prova quem deseja entregar-se aos exercícios espirituais e crescer. Não te espantes, mas é assim mesmo. Quando mais se reza, mais assombração aparece. Tiro e queda, é batata, não tem por onde correr. Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come e se se esconder o bicho acha. Por isso, nada de medo e olha de frente as coisas.
Hoje recordamos Santo Antão, um monge eremita que viveu no deserto do Egito lá pelo século III e IV. Conta a biografia dele, escrita por outro gigante da fé, chamado Santo Atanásio, que Antão ouviu no evangelho a proposta de Jesus ao jovem rico: 
"Se queres ser perfeito, vai vendo tudo o que tens, dá o dinheiro aos pobres. Depois, vem e segue-me, e terás um tesouro no céu" (Mt 19, 21).
E o que fez Antão? Achou que era uma ordem de Deus para ele. Por isso mesmo, "repartiu com os habitantes da aldeia as propriedades que herdara da família (possuía trezentos campos lavrados, férteis e muito aprazíveis) para que não fossem motivo de preocupação, nem para si próprio nem para a irmã. Vendeu também todos os móveis e distribuiu com os pobres a grande quantia que obtivera, reservando apenas uma pequena parte por causa da irmã. Entrando outra vez na Igreja, ouviu o Senhor dizer no evangelho: "Não vos preocupeis com o dia de amanhã" (Mt 6, 34). Não podendo mais resistir, até aquele pouco que restara deu-o aos pobres. (...). Quanto a ele, a partir de então, entregou-se a uma vida de ascese e rigorosa mortificação, nas imediações de sua casa".
Como se deu essa vida de mortificação. Antão, antecipou o que São Bento, dois séculos depois apresentou aos monges como meio de santificação: a oração e o trabalho.
Diz Santo Atanásio que Antão "Trabalhava com as próprias mãos, pois ouvira a palavra da Escritura: 'Quem não quer trabalhar, também não deve comer' (1Ts 3, 10). Com uma parte do que ganhava, comprava o pão que comia; o resto, dava aos pobres". Prossegue Santo Atanásio: "(Antão) Rezava continuamente, pois aprendera que é preciso rezar a sós sem cessar (1 Ts 5, 17). Era tão atento à leitura que nada lhe escapava do que tinha lido na Escritura; retinha tudo de tal forma que sua memória acabou por se substituir aos livros". 
Caraca, veio, esse foi um testemunho ELETROCUTANTE! ARRASANTE! Na oração e no trabalho, na meditação assídua da Palavra de Deus, esse homem no deserto lutou contra o demônio e se tornou nas vezes que foi chamado para socorrer a Igreja, um sinal fortíssimo de Deus, do poder de Deus, da autoridade de Deus. Antão, o pai dos monges é também pai de todo aquele que no silêncio e na solidão, vencem seus fantasmas, voltam-se para Deus e purificam-se, crescem na presença divina. 
E aí, Filoteu, o teu deserto, o teu silêncio, a tua solidão, onde estão, como estão, o que têm feito em ti?
Um abraço e coragem para entrar no deserto vencendo teus medos para ser todo de Deus.
Pe. Marcos.

sábado, 15 de janeiro de 2011

Ser discípulo, ser apóstolo: respostas para os apelos de um novo tempo!

Um tempo novo, novas oportunidades, uma nova chance para construir-se, portas e janelas escancaradas para acolher e sair de si, olhos e ouvidos bem atentos para ver, ouvir o que Deus mostrar, os caminhos que se abrem. Isso, caro Filoteu não acontece só em grandes oportunidades ou em momentos solenes, especiais. Não só nos chamados "tempos fortes" (Advento-Natal, Quaresma-Páscoa), mas deve acontecer a cada dia, a cada instante. Depende muito das escolhas que fazemos, das atitudes e iniciativas, criativas e corajosas que podemos e devemos assumir. Somos chamados a crescer, a amadurecer a dar passos de superação com tudo isso.
Olha só o que São João da Cruz fala das almas bem encaminhadas:
"(...) não se apegam aos instrumentos visíveis, nem se prendem a eles; só lhes importa saber o que convém para obrar, e nada mais. Põem os olhos unicamente em agradar a Deus e andar bem com ele, pois este é todo o seu desejo. Assim, com grande generosidade, dão quanto possuem, tendo por gosto privar-se de tudo por amor de Deus e do próximo, tanto no espiritual como no temporal. Porque como digo, só têm em mira as verdades da perfeição interior: dar gosto a Deus em tudo, e não a si mesmos em coisa alguma" (Noite Escura, Livro I, cap. III, n. 2).
O Tempo Comum no qual entramos nesta segunda feira passada é constituído por 33/34 semanas, distribuídas entre o Batismo de Jesus e a Quaresma (primeiro período) e entre o domingo da Trindade e a solenidade de Cristo Rei (segundo período). O Tempo Comum não celebra um ou outro aspecto particular do mistério de Cristo, como acontece, por exemplo, com o Advento-Natal ou a Quaresma-Páscoa, mas celebra o mesmo mistério na sua globalidade. Realiza isso pela constante referência à páscoa que caracteriza os domingos, assim acompanhando e orientando o caminho pascal do povo de Deus no seguimento de Jesus, rumo ao cumprimento da história. Por isso mesmo, digo a ti, Filoteu, é o tempo em que, sem festividades específicas, não celebraremos algo muito particular, mas o Cristo Senhor estará, nas mesmas coisas de sempre, sendo amado, servido, proclamado, enfim, será Ele o Cristo.
Daí, pensei em papear contigo sobre essa atitude do discípulo, isto é, do seguidor, do convicto e alegre seguidor, do imitador. Um alguém que quer aprender, quer ser corrigido para se transformar, se superar sempre mais. Longe da mediocridade, quer aquecer o coração e alargar horizontes. O discípulo é um alguém que se decidiu por Deus pois Deus o escolheu e ele dará a vida para responder a tão grande dom de eleição divina, quer ser amigo de Deus, de verdade. Sobre o seguimento de Jesus Cristo, o documento de Aparecida (n. 18) tem um trecho lindo, lindíssimo, aliás e altamente comprometedor:
"Conhecer a Jesus Cristo pela fé é nossa alegria; segui-lo é uma graça, e transmitir esse tesouro aos demais é uma tarefa que o Senhor nos confiou ao nos chamar e nos escolher. Com os olhos iluminados pela luz de Jesus Cristo ressuscitado, podemos e queremos contemplar o mundo, a história, os nossos povos da América Latina e do Caribe, e cada um de seus habitantes".
Por isso, voltado para a proclamação de João, mostrando o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo (Jo 1, 29). Chamando Jesus de Cordeiro, ele nos lembra o sacrifício da vítima inocente de expiação dos pecados do mundo, o servo apresentado por Is 53, símbolos fortes da redenção de Israel. Do livro do profeta Isaías lembro o versículo 4 onde está escrito: "E no entanto, eram as nossas enfermidades que ele levava sobre si, as nossas dores que ele carregava".
Sabe Filoteu, o Fr. Patrício me ajuda novamente com sua profunda reflexão a respeito deste tema. Ele lembrava a auto-suficiência do mundo que não precisa de Deus e dos outros, de modo a poder salvar-se somente com suas próprias forças. Heresias vindas das mau interpretadas conquistas da tecnologia, da ciência e do conhecimento, fizeram de cada mulher e de cada homem, um deus para si mesmo e quem sabe, para os outros. E assim, vive-se essa ausência de sentido cheia de um vazio penoso, sofrido. E multiplicam-se as falsas alegrias, os mitos inconsistentes de uma felicidade postiça, superficial e transitória, miseravelmente transitória! Uma vez escutei uma pessoa dizendo que tudo é passageiro, com excessão do motorista e do trocador. Se o motorista é Jesus e tu és o trocador, acho que não te cabe apegar-se a nada. Dá de tuas riquezas aos teus irmãos e irmãs. Acolhe o que de bom eles têm a te dar e sob o comando do Senhor deixa eles entrarem e sê acolhedor com todos. Mas cuidado, não os detenhas: deixa-os ir, quando estiver na hora de descer!
O Cordeiro de Deus tira o pecado. O que é o pecado? Êta pergunta difícil, êta pergunta polêmica, ainda mais num mundo onde o certo e o errado dependem dos gostos ou das conveniências de cada um! O pecado é estar fora da vontade de Deus, é ofendê-lo de forma consciente e livre. E daí vem o grito forte e violento da consciência que estamos longe dele, nos afastamos dele. Olha Filoteu, eu te digo, é preciso estarmos bem atentos ao grito de Pio XII que a seu tempo (onde nem tinha tanta descristianização assim!) que alertava que a humanidade estava perdendo o senso do pecado. São Basílio Magno, bispo e doutor do IV século disse algo muito interessante. Vê só:
"Ora o pecado se define como mau uso, o uso contrário à vontade de Deus daquilo que ele nos deu para o bem. Pelo contrário, a virtude, como Deus a quer, é o desenvolvimento destas faculdades que brotam da consciência reta, segundo o preceito do Senhor" (da regra mais longa de São Basílio Magno, Resp. 2, 1; PG 31, 908-910).
Vê só Filoteu! Aqui cabe um exame de consciência daqueles de arrasar e reconstruir, daquele de por abaixo e edificar sem medo e sem hesitação algo de bom, duradouro, verdadeiro no serviço e na paixão por Jesus. Pensei seriamente nestes desabamentos e demais catástrofes provocadas pelos dilúvios acontecidos no estado do Rio de Janeiro. Um cenário devastador, com certeza. Merece uma mobilização em favor das pessoas penalizadas de tantas formas e maneiras. Vidas ceifadas que choraremos e haveremos de rezar pelo seu repouso. Dá pra entender ou intuir que de verdade tudo passa (de um jeito ou de outro). Já se vê uma primavera de solidariedade naquele mar de lama e de sofrimento. Entretanto pensei quantas catástrofes acontecem no mundo espiritual onde um mar de lama de pecado sufoca e mata tanta gente; e, em nome da liberdade individual, adota-se a política do deixa como é que está pra ver como é que fica. Afinal, o mundo está se perdendo mesmo! Não raramente, o risco de contentar-se com aquele grupinho que frequenta a Igreja no domingo parece consolar e achar que dá pra tocar a vida assim mesmo. Mais que nunca, se faz necessária uma corrente de mobilização para resgatar os que vivem no pecado com a consciência adormentada por tantas distrações ou morta por causa de tantas situações de fechamento ou endurecimento. Pensei nos risco dos quais devemos nos precaver para não virmos abaixo também os que temos alguma caminhada no serviço do Senhor. Já se vê essa atenção, esse compromisso, esse interesse pelo verdadeiro bem do próximo, especialmente o próximo distante de Deus e de sua vontade. É preciso brotar no peito dos fiéis cristãos um coração cheio de caridade pastoral, repleto dos sentimentos do bom Pastor que dá a vida por suas ovelhas.
Volto para o documento de Aparecida:
"Aqui está o desafio fundamental que afrontamos: mostrar a capacidade da Igreja para promover e formar discípulos e missionários que respondam à vocação recebida e comuniquem por toda parte, transbordando de gratidão e alegria, o dom do encontro com Jesus Cristo. Não temos outro tesouro a não ser este. Não temos outra felicidade nem outra prioridade senão a de sermos instrumentos do Espírito de Deus na Igreja, para que Jesus Cristo seja encontrado, seguido, amado, adorado, anunciado e comunicado a todos, não obstante as dificuldades e resistências. Este é o melhor serviço - o seu serviço! - que a Igreja deve oferecer às pessoas e nações" (n. 14).
Esse mesmo Jesus que é anunciado é o ungido com o Espírito Santo que paira sobre ele. João Batista o reconhece exatamente por este sinal: "Vi o Espírito descer, como uma pomba vindo do céu, e permanecer sobre ele. Eu não o conhecia, mas aquele que me enviou para batizar com água disse-me: 'Aquele sobre quem vires o Espírito descer e permanecer é o que batiza com o Espírito Santo'. E eu vi e dou testemunho que ele é o Eleito de Deus" (Jo 1, 32-34). Assim, como o Espírito esteve sobre Jesus resta-nos desejar e pedir para que esteja sobre nós também para que as pessoas vejam e experimentem. Com certeza, não podemos duvidar que a mensagem que anunciamos seja fraca ou incapaz de atingir as pessoas hoje. Claro, um novo ardor, uma nova metodologia, novos meios devem ser utilizados. Não dá mais pra repetir fórmulas, modelos, esquemas que não respondem mais. Mas, com a força do Espírito e com evangelizadores convicto, claro que a mensagem continua sendo propositiva, atraente. O Senhor também batiza hoje com o Espírito Santo. E esse batismo é um dom, é um mergulho, um entrar no oceano do amor divino, na plenitude do Altíssimo que haverá de criar um novo homem, uma nova mulher, um novo ser. Uma aventura nova irá começar, novos desafios e alegrias se sucederão, onde acontecimentos, coisas, pessoas, estruturas, projetos entrarão em cena não para ficar, mas para ajudar a acontecer essa construção de uma história de salvação repleta de eternidade no coração do eleito. Desapegado e livre, desejoso de crescer e aberto para Deus, esse evangelizador é antes de tudo um discípulo, um amigo de Deus. Não é um funcionário, um mero operário. É um missionário.
Que o Espirito de Deus também repouse sobre ti e deixo essa reflexão, esperando no Senhor que te faça bem.
Quer rezar comigo e com o salmista?
"No Senhor nós esperamos confiantes
porque ele é nosso auxílio e proteção!
Por isso, nosso coração se alegra nele,
seu santo nome é nossa única esperança.
Sobre nós venha, Senhor a vossa graça,
da mesma forma que em vós nós esperamos!"
[Sl 32 (33), 20-22).


sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

E a sogrinha de Pedro arrasou!

E a sogrinha do Pedro arrasou! Deu conta do recado mesmo! E por qual razão? Bem, conta o Evangelho (Mt 8, 14-15) que Jesus entrou na casa de Pedro. A sogra dele estava de cama e com febre. Logo que Jesus tocou-lhe a mão, a febre a deixou. E qual foi a atitude dela ao ser curada? Levantou-se e pôs-se a servi-lo. Não poucas vezes achei que essa mulher é realmente cheia de grande sabedoria. Coitada das sogras! Tão mal faladas! Alguém pode achar fácil eu dizer isso pelo fato de não ter sogra o autor deste blog, pelo fato de ser um padre!!!. Rsrsrs. Bem, brincadeiras à parte, lanço o meu olhar sobre o cenário que nos é apresentado e te convido a que tu, Filoteu, faças o mesmo e vejas o quanto a mão do Senhor é poderosa.
Que esta mão repouse sobre nós e nos ampare, nos cure e nos sustente. A mão é um símbolo de ação, de trabalho, de atividade. A mão ampara, é meio de comunhão, é meio para apontar caminhos. Se ela estava com febre, alguma doença ela tinha. Quais são tuas febres? Não só aquelas da tua dimensão física que os médicos e profissionais de saúde conseguem detectar, mas aquelas interiores. Sim, é preciso descobrir estas também. São indicativo que alguma coisa vai mal. E o que seriam tais “febres”? Sei lá, mas pensa bem: quais tuas escolhas, tuas prioridades, tuas metas? Quais medos tens tido e até que ponto eles te paralisaram ou bloquearam? Quais tuas inseguranças e teus pecados que resistem às tuas tímidas ou incertas tentativas de conversão? Tais são febres que clamam por uma corajosa abertura à ação da mão de Deus. Não é curanderismo ou mágica, é poder de Deus agindo e fazendo acontecer. Aqui, mais forte e mais poderoso ainda que as curas físicas, pois no caso da tua conversão passa pela tua LIBERDADE, morou? Sacou? Que tal?

Um belo e fantástico exemplo da sogrinha de Pedro: Ela ao ser curada colocou-se à serviço. Yes! Isso mesmo! Tem tanta gente que, curada por Deus, volta-se para si mesmo de forma egoísta e tão pouco se lixando pra nada e pra ninguém. Tem tanta gente que faz da cura de Deus um meio para simplesmente se livrar da dor ou do problema que atormenta ou chateia. Tem tanta gente que faz da cura uma recuperação da saúde para pecar. Tem tanta gente que faz da cura um meio para não mudar nada e continuar o mesmo ou até pior ou mesmo melhora só um pouquinho. Será que o crescimento interior é feito de pequenas melhoras ou de profundas mudanças, no rumo de uma adesão mais radical ao Evangelho? Não estou jogando pedra em ninguém, mas lanço estes questionamentos para quem quiser pensar sobre a própria vida.

Parece que essa sogra aqui é show! Não sei se Pedro, com seu temperamento impetuoso e meio briguento andou tendo uns “arranca rabos” com ela. Mas que ela foi liquidificante e arrasante, isso ela foi! Deus queira que as outras sogras sejam também assim e que pela misericórdia de Deus também nós sejamos servos por amor como uma resposta bem concreta ante as várias curas que Nosso Senhor realiza em nossas vidas.

Abraço para ti, Filoteu, amigo de Deus, servidor do Senhor!

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

ORAÇÃO ATRIBUÍDA AO PAPA CLEMENTE XI

Caro Filoteu!

Deixo contigo uma oração atribuída ao Papa Clemente XI. Convido-te a por-te em oração e refletir muito sobre essas palavras.Faça uma bela experiência de Deus com ela. Um abraço,
Pe. Marcos

Meu Deus, eu creio em vós, mas fortificai a minha fé; espero em vós, mas tornai mais confiante a minha esperança; eu vos amo, mas afervorai o meu amor; arrependo-me de ter pecado, mas aumentai o meu arrependimento. Eu vos adoro como primeiro princípio, eu vos desejo como fim último; eu vos louvo como benfeitor perpétuo, eu vos invoco como benévolo defensor. Que vossa sabedoria me dirija, vossa justiça me contenha, vossa clemência me console, vosso poder me proteja. Meu Deus, eu vos ofereço meus pensamentos, para que só pense em vós; minhas palavras, para que só fale em vós; minhas ações, para que sejam do vosso agrado; meus sofrimentos, para que sejam por vosso amor. Quero o que quiserdes, porque o que quereis como o quereis, e enquanto o quereis. Senhor eu vos peço: iluminai minha inteligência, inflamai minha vontade, purificai meu coração e santificai minha alma. Dai-me chorar os pecados passados, repelir as tentações futuras, corrigir as más inclinações e praticar as virtudes do meu estado. Concedei-me ó Deus de bondade, ardente amor por vós e aversão por meus defeitos, zelo pelo próximo e desapego do mundo. Que eu me esforce para obedecer aos meus superiores, auxiliar os que dependem de mim, dedicar-me aos amigos e perdoar os inimigos. Que eu vença a sensualidade pela austeridade, a avareza pela generosidade, a cólera pela mansidão e a tibieza pelo fervor. Torne-me prudente nas decisões, corajoso nos perigos, paciente nas adversidades e humilde na prosperidade. Fazei Senhor, que eu seja atento na oração, sóbrio nos alimentos, diligente no trabalho e firme nas resoluções. Que eu procure possuir pureza de coração e modéstia de costumes, um procedimento exemplar e uma vida reta. Que eu me aplique sempre em vencer a natureza, colaborar com a graça, guardar os mandamentos e merecer a salvação. Aprenda de vós como é pequeno o que é da terra, como é grande o que é divino, breve o que é desta vida e duradouro o que é eterno. Dai-me preparar-me para a morte, temer o dia do juízo, fugir do inferno e alcançar o paraíso. Por Cristo Nosso Senhor. Amém

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

VOCAÇÃO: UM CHAMADO, UM DOM, UMA MISSÃO!

Oi Filoteu!

Hoje te escrevo sobre um texto muito importante: A vocação dos primeiros discípulos. Lá na beira do lago, o Mestre passava e ao ver dois irmãos, os chamou. Os convidou a serem pescadores de homens. Mas, antes de tudo, estes homens deveriam segui-lo. (veja em Mt 4, 18-22)
ISSO! Antes de tudo seguir Jesus, não somente com as pernas, mas com a cabeça e o coração. Não somente por fazer parte de um grupo de oração, por estar engajado em alguma atividade ou comunidade da Igreja. Não somente por ter um dia ter recebido a ordenação sacerdotal ou ter-se consagrado a Deus. Tudo isso, está em função de uma vivência, de uma experiência, de um seguimento, de uma imitação. Seguir, dizia São João Crisóstomo, significa imitar. Pense! Vocacionado não tanto a ocupar cargos ou simplesmente exercer ministérios, mas como servos de todos, viver o que Deus nos pede, assumir uma missão. Digo brincando e falando sério que missão é aumentativo de missa. "Este é o meu corpo dado por vós. Este é o meu sangue dado por vós". É uma doação total, integral, radical, sem meias medidas. Foi assim que o Mestre fez e assim farão seus discípulos.
Olha Filoteu, pode tirar o cavalinho da chuva e até o jegue ou os bodes também se pensas que isso é utopia, ou é impossível. Vê só: aqueles pobres, reles pescadores, acho que nem sabiam direito quem era aquele rabi que passa e com uma autoridade vinda não sei de onde, com um fascínio enigmático e surpreendente, arrasta atrás de si aqueles homens mais acostumados na arte da pesca de peixes que no convencimento ou conversão de pessoas humanas. Bem que Ele poderia escolher uns letrados, uns fulanos mais espirituais. Caramba! Logo esses caras? Gente pobre, rude, tosca. Trabalhar essa turma deve ter sido osso! Não tinha gente melhorzinha para assumir os altos encargos de apóstolos? "Porque os dons e a vocação de Deus são sem arrependimento" (Rm 11, 29). E por que Jesus chamou esses e não outros? "Jesus subiu ao monte e chamou quem ele quis" (Mc 3, 13).

Olha Filoteu, não resisti à inspiração (acho que não foi tentação) de transcrever um trecho dos manuscritos autobiográficos de Santa Teresinha. Lê só quando comenta a vocação dela:


Antes de pegar a caneta, ajoelhei-me diante da imagem de Maria (aquela mesma que tantas provas nos deu das maternas predileções da Rainha do céu por nossa família), e lhe pedi que guiasse minha mão para que eu não escrevesse uma linha sequer que não a agradasse. Em seguida, abrindo o Evangelho, meus olhos pousaram sobre estas palavras: «Jesus, tendo subido a uma montanha, chamou a si quem Ele quis; e vieram a Ele" (são Marcos, cap. III, v. 13). Eis o mistério de minha vocação, de minha vida inteira, e, sobretudo, o mistério dos privilégios dispensados por Jesus à minha alma... Não chama os que são dignos, mas quem Ele quer, ou, como diz São Paulo: "Farei misericórdia a quem eu fizer misericórdia; terei compaixão de quem eu tiver compaixão. Desta forma, a escolha não depende daquele que quer, nem daquele que corre, mas da misericórdia de Deus" (Carta aos Romanos, cap. IX, v. 15 e 16).
   A Teresinha arrasa! Ela captou a força da gratuidade da eleição que repousa sobre ela e sobre todos os escolhidos!
Eles, os discípulos, foram chamados, em primeiro lugar, para estarem com Jesus. Aqui está o coração de toda vocação cristã. Estar com o Mestre, viver com Ele, ouvi-lo, conviver com Ele, viver por Ele, n'Ele. Daí a importância de uma vida interior bem cultivada, bem alicerçada, daí a necessidade de VIVER DE DENTRO PRA FORA e não o contrário. Quando se passa a ocupar-se tanto nas obras do Senhor ao ponto de esquecer-se do Senhor das obras, corre-se o risco de viver como funcionários da Igreja que cumprem obrigações, arrastam-se atrás dos deveres e não missionários, evangelizadores convictos e entusiasmados.

Eu farei de vós pescadores de homens! Não podemos ser evangelizadores por nós mesmos. Não basta talento ou boa vontade, competência e eficiência. É preciso deixar-se formar por Jesus, aprender d'Ele. Quem nos faz pescadores de homens, é Ele. Claro, é preciso pescar, lançar as redes, acreditar, fazer nossa parte, mas sempre em parceria com Ele, no poder de sua Palavra, na força de sua graça e na unção do Seu Espírito. Vocação é isso: é chamado. A iniciativa é sempre d'Ele e ninguém pode mudar isso. Lembro sempre do que diz Nosso Senhor: "Não fostes vós que me escolhestes, mas fui eu que vos escolhi e vos designei para que vades e produzais fruto e para que o vosso fruto permaneça, a fim de que tudo o que pedirdes ao meu Pai em meu nome ele vos dê" (Jo 15, 16).
   A mediocridade é uma caixa de veneno na caminhada vocacional. O apelo divino se repete diariamente e diaremente a tua resposta não pode faltar. A resposta se traduz nas atitudes, nas escolhas, nas opções. Vocação não combina com fugas, desistências, desânimos. As provações, os desafios, as tribulações e tentações são oportunidades de crescimento e nunca um palco para fazer uma tragédia grega, cheia de um vitimismo patético e ridículo. Toda crise é um risco, mas é também uma chance, uma oportunidade, uma possibilidade que se abre. Para crescer, amadurecer, santificar-se. Uma coisa é certa: Não queiras as coisas pela metade. Sê todo em tudo o que fizeres, em tudo que quiseres, em tudo que pensares, em tudo que falares, em todo o teu ser. Sê todo ante o Tudo de Deus, ante o Todo que é Deus e diante de todos os homens e de todas as mulheres não te dividas. Sê todo em cada situação, em cada acontecimento. Não se fragmentam os que são inteiros. Esta unidade fará de ti uma muralha, uma fortaleza. Mas, esta unidade nunca acontecerá se tu não te unires 'Aquele que é TUDO, que foi todo do Pai e todo nosso, Nosso Senhor Jesus Cristo.

Hoje a Teresinha tá com a corda toda!. Afinal, em termos de vocação ela é uma perita. De um episódio bastante curioso da infância, ela tirou um propósito de grande importância e que a fez voar com vigor na direção de Deus. Dou a ela a palavra:
Um dia, julgando-se muito crescida para brincar com boneca, Leônia veio procurar-nos a nós duas com uma cesta cheia de vestidos e de lindos retalhos para fazer outros; por cima estava colocada sua boneca. - "Tomai lá, minhas irmãzinhas, diz-nos ela, escolhei, dou-vos tudo isto". Celina estendeu a mão e tomou um pacotinho de alamares que lhe agradava. Após um instante de reflexão, estendi a mão por minha vez e declarei: - "Escolho tudo!" e apoderei-me da cesta sem outra formalidade. As testemunhas da cena acharam o caso muito justo, a própria Celina nem pensou em reclamar. (Aliás; brinquedos não lhe faltavam, seu padrinho cumulava-a de presentes e Luísa descobria meios de arrumar-lhe tudo quanto desejasse).


Este pequeno episódio de minha infância é o apanhado de toda a minha vida. Mais tarde, quando se me tornou evidente o que era perfeição, compreendi que para se tornar santa era preciso sofrer muito, ir sempre atrás do mais perfeito e esquecer-se a si mesmo. Compreendi que na perfeição havia muitos graus e que cada alma era livre no responder às solicitações de Nosso Senhor, no fazer muito ou pouco por Ele, numa palavra, no escolher entre os sacrifícios que exige. Então, como nos dias de minha primeira infância, exclamei: "Meu Deus, escolho tudo". Não quero ser santa pela metade. Não me faz medo sofrer por vós, a única cousa que me dá receio é a de ficar com minha vontade. Tomai-a vós, pois "escolho tudo" o que vós quiserdes!. . . "



    Uma palavra que em termos vocacionais faz toda a diferença: a PERSEVERANÇA, A GRAÇA DAS GRAÇAS! Isso mesmo. É preciso insistir, persistir e nunca desistir. E a perseverança é uma conquista diária. Todo dia, a cada instante. A fidelidade é construida tijolo a tijolo, pedra sobre pedra. Não de uma vez, mas sempre um pouco. O ideal é grande, a eternidade compensa: e como! Por isso, lembro de um personagem do filme "Procurando Nemo". Lá a Doris, aquela "peixinha" que tinha um problema de perda de memória recente, deu um recado importante: Continue a nadar, continue a nadar, continue a nadar, continue a nadar,....
   Vários anos atrás, quando estreava minha vida de seminarista (é o noooovooo!!!), fui a uma cerimônia de consagração de algumas religiosas. Lá entoavam um canto de entrada que nunca me esqueci. Se não me engano é da autoria do Pe. Zezinho. Uma reflexão vocacional primorosa e que deixo para ti:

A voz o meu Senhor/ feriu meu coração/ e me fez inquieto/ por meu povo e minha fé/ vesti sorriso e dor/ e me tornei cristão/ dividi meu teto/ com Jesus de Nazaré
Nesta santa mesa/ vim partir o pão/ corpo de Jesus/ meu Deus e meu irmão/ na Eucaristia vivo a minha vocação/

Se Cristo te chamou/ melhor é não fugir/ a felicidade é salário do servir / e quem disser um não/ à voz interior/ vai sentir saudades dos carinhos do Senhor.

  
Desejo-te uma feliz descoberta de tua vocação e se já escolhestes, desejo dias felizes (felicidade não quer dizer facilidade, viu?) com Jesus em tão grande projeto de vida. "E por esta estrada vai, vai e não voltes atrás mais e não voltes atrás jamais".







Um abraço e bênção.






Pe. Marcos.





  

domingo, 9 de janeiro de 2011

O BATISMO DO SENHOR: UM MERGULHO NA LIBERDADE!

Olá Filoteu!

   Estamos concluindo o tempo do Natal. Tanta coisa já passou porque simplesmente tudo passa. As águas de um rio, dizia o filósofo grego Heráclito, nunca são as mesmas. Mesmo sendo a mesma pessoa, a história e as escolhas feitas no curso desta história vão deixando suas marcas e definindo um destino, um rumo. Somos o que escolhemos, de certa forma. Acho necessário e essencial não perder de vista o que não passa, os verdadeiros valores. Valores do Céu, valores do Evangelho, mas também valores humanos: a família, a amizade, o companheirismo, a solidariedade, a cordialidade, viver intensamente cada momento, sem deixar de estrair a parcela ou a porção de felicidade que está por detrás de tudo que se vive. Tudo isso é muito importante, Filoteu. Lembro-te aquilo que o grande doutor e mestre João da Cruz escreveu: "No ocaso desta vida, serás julgado pelo amor".
   Vou ao assunto de hoje. O BATISMO DO SENHOR. Festa preciosa. Fico a pensar naquele evento em que o Batista promove um batismo de conversão, um batismo de penitência. Pra quê? Exatamente para acolher o Messias que deveria vir. Por isso, Quem é a própria santidade vem ao encontro de João e pede pra ser batizado. Coitado do João! Fica sem graça e treme! E lá vai o pobre do filho da Isabel e do Zacarias tentar fazer o Senhor mudar de idéia. Pela "lógica" das coisas deveria ser o Cristo que batizaria João. "Eu é que devo ser batizado por ti e tu vens a mim?" (Mt 3, 14). Caramba! Caraca! Será possível um negócio desses? Onde já se viu? O Cristo viver esse batismo de purificação, de conversão? Não é uma contradição? Ele é O SANTO, o único Santo. Todos os demais homens e mulheres que chamamos de santos e santas são na verdade amigos e amigas de Deus e são assim chamados porque participam da santidade de Deus. Mas, o Senhor retrunca: "Deixa estar por enquanto, pois assimnos convém cumprir toda a justiça"(Mt 3, 15). Trata-se de uma preparação para a era do Messias que chegou. Começou a nova justiça que vai além da lei antiga, da antiga aliança. Jesus, mesmo não tendo pecado e sendo a própria luz, reconhece naquele batismo um acontecimento que cumpre a vontade do Pai.
    São Gregório de Nazianzo, bispo que viveu no século IV, comentou sobre o tema: "João reluta. Jesus insiste. (...), diz a lâmpada ao Sol, a voz à Palavra, o amigo ao Esposo, diz o maior entre os nascidos de mulher ao Primogênito de toda criatura, aquele que estremecera de alegria no seio materno ao que fora adorado no seio de sua Mãe, o que era e seria precursor ao que já tinha vindo e de novo há de vir"(Oratio in sancta Lumina). Pense num pensamento power! Esses sentimentos de humildade de João, o Batista, devem marcar nossas vidas profundamente. Com certeza valorizaremos mais o Senhor, seus dons, seu amor, a vocação que Ele nos deu, valorizaremos as pequenas coisas, seremos fiéis no pouco. Não somos dignos, mas por misericórdia divina aqui estamos. Se perseveramos, não é em função por sermos mais que ninguém, ou alguém ou quem quer que seja. É tudo dom gratuito do Pai, por Cristo no Espírito.
    Os céus se abriram e veio o Espírito em forma de pomba. Os céus fechados por Adão, se abrem por Cristo. Das águas, símbolo da purificação e da santificação, símbolo da vida e da graça, somos introduzidos na vida divina. Somos introduzidos na novidade da graça, somos feitos membros da Santíssima Trindade. Ora, Deus se revela como uma comunidade de Pessoas, epifania trinitária é o que contemplamos no cenário do batismo. A voz do Pai proclamando seu Filho alvo do seu bem-querer, o Espírito Santo em forma de pomba e o o Filho, tendo assumido nossa humanidade, sai das águas do rio Jordão, por eles santificadas.
    Sabe Filoteu, tudo isso nos leva a refletir sobre a nossa identidade de batizados. Também nós, feitos filhos no Filho, nos tornamos também irmãos de Jesus e casa de Deus, santuários do Espírito Santo. Nossa dignidade é enorme, muito grande. Por isso, a vontade de Deus para todos os batizados é à santidade. A santidade deve ser aspirada por nós, deve ser buscada generosa e avidamente. É como se fosse esse o nosso alimento, nosso ar para respirar. Tremo ao escrever isso, mas precisamos correr atrás disso. É essa a meta a que devemos aspirar, pois isso, como dizem os Estatutos da Comunidade Shalom, não é presunção, mas vocação. Santos por vocação, não por presunção. Isso vale para os batizados.
   Porque ser batizado é voltar-se para aquilo que é muito bem simbolizado pelo batismo por imersão (aquele em que a pessoa é mergulhada nas águas). Quando a pessoa mergulha, representa a morte de Cristo, o descer ao sepulcro com Ele. Quando emergimos, é como se ressuscitássemos com Ele. Por isso, mortos com Cristo pelo batismo para com Ele ressuscitar. Diz Paulo: "Portanto, pelo batismo nós fomos sepultados com ele na morte para que como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai, assim também nós vivamos vida nova" (Rm 6, 4).
     Eu te desejo feliz vida de batizado, caro Filoteu. Essa é a maior dignidade, junto com nossa humanidade que podemos portar nesta vida e garantia da bem-aventurança futura do Céu. Que tua alegria seja viver com intensidade e generosidade essa doação initerrupta a Deus, nesta vida morta para o pecado e cheia de vida para a graça.
    Um abraço,
    Pe. Marcos.
   

 
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