quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Toma consciência de tua dignidade!

Oi Filoteu!

   Ainda no tempo do Natal, tem uma mensagem que achei arrasantemente triturante e achei importante partilhar contigo. Trata-se de um sermão de um grande papa e doutor da Igreja que viveu no VI século, chamado Leão Magno. Ele nos diz:

   "Toma consciência, ó cristão, da tua dignidade. E já que participas da natureza divina, não voltes aos erros de antes por um comportamente indigno de tua condição. Lembra-te de que cabeça e de que corpo és membro. Recorda-te que foste arrancado do poder das trevas e levado para a luz e o reino de Deus. Pelo sacramento do batismo te tornaste templo do Espírito Santo. Não expulses com más ações tão grande hóspede, não recaias sob o jugo do demônio, porque o preço de tua salvação é o sangue de Cristo".

    Pense só! Vale à pena refletir e dar um rumo à própria vida a partir disso que esse santo padre da Igreja nos apresenta como um rumo a ser tomado. 

   Um abraço e bênção do Pe. Marcos. 

 

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

As exigências da encarnação do Verbo



   Oi Filoteu! Ainda no rastro do Natal, pensei postar por aqui uma reflexão sobre as exigências do mistério da encarnação do Verbo em nossas vidas. Isso mesmo. Precisamos assumir alguns princípios que a própria Palavra de Deus e o testemunho vivo da Palavra feita carne nos dá e de nos solicita.

   O apóstolo Paulo, escrevendo aos filipenses diz que o Cristo que tinha condição divina "...esvaziou-se a si mesmo e assumiu a condição de servo tomando a semelhança humana. E achado em figura de homem, humilhou-se e foi obediente até a morte, e morte de cruz" (Flp 2, 6-8). Mesmo conservando a natureza divina, pois o Verbo é consubstancial ao Pai, Jesus é homem e enquanto tal não reivindicou para si uma igualdade de tratamento de tão alta dignidade. A atitude de Jesus se apresenta então oposta à de Adão que quis ser como Deus: "sereis como deuses, versados no bem e no mal", assim disse a serpente infernal ao primeiro pai (ver Gn 3, 5). Que significa ser como deuses, ou igualar-se a Deus? Bem mais que criar as coisas, fazer milagres e dispor dos acontecimentos e demais infinitos poderes, significa definir o que é certo e o que é errado, definir o bem e o mal. Já pensaste sobre isso? Quantas vezes em nossas vidas, o bem e o mal, o certo e o errado foram postos ou definidos e acima de tudo escolhidos a partir de critérios diferentes do que Deus pensa e do que Deus quer! Vale uma reflexão! 

  Já comentamos o sentido do que São João nos dá ao afirmar que o "Verbo de Deus se fez carne" (Jo 1, 14) e lá falamos da fraqueza assumida, do assumir as contingências humanas, aos limites e dores, necessidades e carências. Algo impensável para um Deus? Com certeza, mas esse Deus que assumiu a natureza humana, sendo infinito e todo poderoso, sendo infinita e eternamente belo, bom e verdadeiro, fonte de toda sabedoria, bem Ele mesmo, TEM MANIA DE POBREZA E DE PEQUENEZ! Entendeste filoteu o quanto o orgulho humano cai por terra? Compreendes, portanto, que a vaidade humana é uma mentira escrachada e esculachada? Êta mentira descarada!

   Sabe filoteu, esse abaixar-se do Verbo encontra na encarnação o seu ponto inicial, mas sua manifestação, digamos visível, aconteceu exatamente na gruta de Belém em que Ele se manifestou na carne de uma criança. Pobre e pequeno. Ora, lembro-te do que ensina o grande João da Cruz, o doutor místico:

 "Ter constante desejo de imitar a Jesus Cristo em todas as coisas, conformando-se com a sua vida, a qual deve considerar para saber imitá-la e comportar-se em todas as coisas como ele se comportaria. Para poder fazer isto, é necessário renunciar a qualquer apetite ou gosto que não seja puramente para honra e glória de Deus, e ficar sem nada por amor dele que nesta vida não teve nem quis ter mais do que fazer a vontade e seu Pai, à qual chamava sua comida e seu manjar" (São João da Cruz, Ditos de Amor e de Luz, n. 158).

   Por isso, ser pobre de espírito, como Jesus nos ensina é viver bem essa imitação. Uma imitação que lança as bases da liberdade interior, aliada indispensável dos que desejam trilhar estes caminhos de cristificação. Trata-se de uma disposição de desprendimento profundo, radical e essencial a tudo que não seja Deus. Por isso, o pobre de espírito é disponível para o Reino e não está apegado a nada, a ninguém, a nenhum projeto, até mesmo à própria santidade que pensa ser santidade. Olhar, contemplar, acolher para imitar o Senhor exige que sua vida e suas escolhas, suas palavras e sua mentalidade estejam profundamente fincadas na existência de cada um dos seus discípulos e amigos, servidores e vocacionados. Imitadores, seguidores é o que tais pessoas são chamadas a ser. Ensina-nos o Senhor Jesus:

"Se alguém quer servir-me, siga-me; e onde eu estou, aí também estará o meu servo. Se alguém me serve, meu Pai o honrará" (Jo 12, 26).

Para terminar, eu te digo, Filoteu algo profundamente necessário: os amores dos místicos foram o presépio, o calvário e o sacrário. Serão estes os teus amores?

Um abraço e bênção do padre.

domingo, 26 de dezembro de 2010

A PALAVRA DE DEUS ENTROU NA HISTÓRIA

Caro Filoteu!

  Volto ao tema ao redor do qual orbitamos: o tempo do natal. E por falar em tempo, tu pensaste alguma vez o quanto ele é importante para nós? Pensaste que nossa vida é toda direcionada e conduzida pelo tempo que medimos através de segundos, minutos, horas, dias, semanas, meses, anos, décadas, séculos, milênios? E por que o medimos? Porque a vida transcorre e para haver um senso mínimo de organização da nossa vivência enquanto indivíduos e sociedade carecemos medir, delimitar, alargar ou encurtar os momentos que escorrem, que passam, que vivemos ou até mesmo os previstos. A isso chamamos de tempo cronológico, o tempo que se mede.

    Entretanto, há um tempo que não dá para medir em função de sua intensidade, de sua profundidade, do sentido e do valor que damos a ele. É o tempo noético. Esse tempo noético pode ser subdividido em tempo airon e tempo kairós. No tempo airon vemos a realidade do tempo vivido na intensidade de quem cumpre uma missão, vive radical de modo a imergir no que vive, no que faz, no que é. Uma criança brincando é um exemplo formidável desse tempo. E o tempo kairós é o tempo da graça, é o tempo favorável, é o tempo da salvação. Pois bem, caro filoteu, é desse tempo que agora quero falar, claro, sempre em conexão com os demais conceitos acima referidos. A esse respeito diz o apóstolo Paulo: "Quando, porém, chegou a plenitude dos tempos, Deus enviou o seu Filho, nascido de uma mulher" (Gl 2, 4). O apóstolo das gentes faz um ato de fé na encarnação do Verbo eterno do Pai que, por sua vez, São João dirá: "E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós; e nós vimos sua glória, glória que ele tem junto ao Pai como Filho único, cheio de graça e verdade" (Jo 1, 14). Ao falar da carne assumida pela Palavra eterna de Deus, o evangelista nos diz que o Verbo não assumiu a carne paradisíaca de Adão, o qual nos é apresentado independente, autônomo e pleno assim que surge, ou melhor, assim que é criado. Carne designa a condição de fraqueza e de mortalidade. E por ser um ser de carne, um ser humano, estamos diante de um ser temporal, sujeito aos efeitos do tempo que passa inexoravelmente para todos. Tu pensaste nisso, Filoteu? Ele foi embrião, feto, menino, pré-adolescente, adolescente, jovem e adulto. Como eu e como tu (que és ou ainda percorrerás as demais etapas da vida, cadenciadas pelo tempo). Quando Lucas nos coloca Jesus nascendo em tempos de um recenseamento, o do imperador romano César Augusto ( de 30 a.C. até 14 d.C.), Jesus é posto na história (veja Lc 2, 1). E mais, o evangelista nos afirma que ao inserir no tempo e no espaço, nos fala da grande verdade da encarnação do Verbo eterno do Pai. Ele entrou na história, na minha história, na tua e nossa história e a transformou em uma história de salvação. Na temática lucana, tal edito imperial, um capricho ou uma estratégia organizacional do grande monarca, nos desígnios da providência, visava confluir no cumprimento das profecias. Desta feita, obrigados por esta imposição, José e Maria foram a Belém para recensear-se, pois José era da casa e família de Davi (Lc 2, 3-4).  O autor da carta aos Hebreus comenta: "Muitas vezes e de modos diversos falou Deus, outrora, aos Pais pelos profetas; agora, nestes dias que são os últimos, falou-nos por meio do Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, e pelo qual fez os séculos" (Hb 1, 1-2).
    O que seria então essa plenitude dos tempos a que se refere Paulo? Por que esse tempo e não outro? Com certeza, tempos previstos por Deus, definidos por Deus, estavam nos seus desígnios.
     E por que Belém? Disse o profeta Miquéias: "E tu Belém, terra de Judá, de modo algum és o menor entre os clãs de Judá, pois de ti sairá um chefe que apascentará Israel, o meu povo" (Mq 5, 1). Belém é cidade de Davi, cidade real, cidade do pastor. Vindo da descendência de Davi e de Abraão, é o grande messias prometido. Nele cumpre-se a profecia. Introduzido nesta linhagem genealógica (ver Mt 1, 1-17), a Palavra eterna assume a nossa história, uma história cheia de percausos, de pecados, tragédias e contradições. E oferece a oportunidade de que escrevamos essa história não com os borrões e rasuras de tanta infidelidade ou de tanta corrupção, mas com a tinta vermelha de seu sangue humano e tão precioso que nos salvou e resgatou.

   Por isso, caro filoteu, faço minhas as palavras de Bento XVI: "no início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande idéia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo" (Deus caritas est, 25dez2005,  217-218). Na última encíclica, o papa, lembra que a Palavra não é apenas audível (não apenas se ouve a Palavra), mas tem um rosto, isto é, podemos ver Jesus de Nazaré (Verbum Domini, n. 12).
    Não foi por acaso isso que João, o discípulo amado, nos ensinou com sua impressionante e tão vibrante experiência a respeito do Verbo encarnado? Passo-lhe a palavra, e com ele encerro minha reflexão: "O que era desde o princípio, o que vimos e ouvimos, o que vimos com nossos olhos, o que contemplamos, e o que nossas mãos apalparam do Verbo da vida - porque a Vida manifestou-se: nós a vimos e lhe damos testemunho e vos anunciamos para que estejais em comunhão conosco" (1Jo 1, 1-3).
   Pensa nisso, pensa bem nisso, e faz do teu tempo, um kairós, um airon e não meramente um vazio cronos.
    Um abraço e bênção do Pe. Marcos.

UM MENINO NOS FOI DADO!


Oi Filoteu! Estava meio ausente, mas não poderia deixar de te enviar minha mensagem de Natal. Estou postando na festa da Sagrada Família, mas em vista que o Natal tem oitava, isto é, comemora-se na liturgia por oito dias, então ainda dá tempo.

Caro amigo, a profecia de Isaías, (9, 1) de que o povo que andava nas trevas viu uma grande luz, a mesma luz que raiou para os que habitavam uma terra sombria como a da morte, bem essa profecia é para mim e para ti. Aquilo que se dizia do Batista, que ele não era a luz, mas veio dar testemunho da luz (Jo 1, 8) é a verdade que precisamos assumir. Que diremos mais? "Porque um menino nos nasceu, um filho nos foi dado, ele recebeu o poder sobre os ombros, e lhe foi dado ete nome: Conselheiro-maravilhoso, Deus-forte, Pai-eterno, Príncipe-da-paz" (Is 9, 5). Foi o mesmo que o anjo afirmou aos pastores: "Não temais! Eis que vos anuncio uma grande alegria, que será para todo o povo: Nasceu-vos hoje um Salvador, que é o Cristo-Senhor, na cidade de Davi. Isto vos será dado como sinal: encontrareis um recém-nascido envolto em faixas deitado numa majedoura" (Lc 2, 10-12).

Que nos resta fazer? Tomemos a decisão dos pastores e com eles afirmemos e façamos o que disseram: "Vamos já a Belém e vejamos o que aconteceu, o que o Senhor nos deu a conhecer" (Lc 2, 15). O que é Belém? Casa do pão é o seu significado etmológico. Casa da Eucaristia, casa do sustento diário, do nutrimento indispensável. Casa do encontro ao redor da mesa.  Imagem do que somos chamados a ser. Belém era a terra de Davi, o rei-pastor, um rei segundo o coração de Deus.

Mas, ao invés e nascer no palácio luxuoso, como é comum aos príncipes e aos reis, o menino foi encontrado deitado na manjedoura. Com certeza, um lugar pobre, marcadamente precário, sem conforto, quiçá, mau cheiroso. Presenças sublimes como a de Maria e e José enobrecem imensamente esse ambiente. A presença do Menino, vixe, nem se fala, pois eterniza, diviniza, ilumina ao infinito aquela pobre manjedoura! Outras presenças não podem passar des-percebidas; a dos pastores, homens marginalizados e dos animais que lá estavam, nos recordam que nossas sombras, nossas paixões, nossas fraquezas, tudo isso também faz parte do ambiente. O cenário é de pobreza, é bom frisar e insistir, mas foi nesse lugar que o Todo-Poderoso quis chegar.

Teu coração, caro Filoteu é essa gruta. E o Menino que é Deus com o Pai quis contigo se entreter, quis contigo viver e morar. Agora enquanto és peregrino e depois para sempre no Céu. Já pensou? Entra na tua Belém e adora aquele que os astros não podem conter. Entra na tua gruta e venera com devoção teu Salvador e Senhor. Toma-O nos braços e olha-O dormindo candidamente ou chorando de fome querendo mamar. Ou chorando por ter feito cocô ou xixi. Ou rindo para ti com aqueles olhinhos pequeninos, aquela boquinha aberta pelo bocejo do sono quase interminável dos recém-nascidos. Adora tanta humildade de um Deus assim grande e deixa-te amar por essa presença santa, por essa salvação desconcertante e tão indescritível bondade. Um mistério que só nos resta adorar, de joelhos e em silêncio.

Concluo com as sábias palavras de São João da Cruz, o doutor místico: "Uma palavra disse o Pai, que foi seu Filho; e di-la sempre  no eterno silêncio e em silêncio ela há de ser ouvida pela alma" (Ditos de Amor e de Luz, n. 98).

Vinde e Adoremos!

Um abraço e feliz Natal!

Pe. Marcos.

PS: Falarei ainda sobre esse assunto e retomarei o tema das demais bem-aventuranças.

 
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